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amor barroco


quando a mariposa
se acerca do candeeiro
não sabe que seu beijo
trairá a sua boca

quando o candelabro
tentando ser inteiro
ilumina o seu negro
a sacrifica desencontrado

e o que é encanto profundo
esvanece na luz do roceiro
que não pode ser feito
noturno, perfeito, fecundo

"The mill", Rembrandt, 1650.

Jasmim


Sementinha de mim.
Sementinha minha.

Sem mim.

Jaz em mim
um jasmim.

"Apple Tree", Klimt, 1903.

Ariane



quando estiveres insone
quando pensares nas regras e ditames
chame por meu nome


quando estiveres perdido e errante
se não houver quem o ame
apenas chame o meu nome


quando a dor for bastante
ou a alegria constante
não hesite, me chame


e se eu estiver distante
e mesmo que tuas mãos não me alcancem
teus olhos não me encontrem
e tudo te abandone
chame o meu nome


nem que seja por um instante
ou doravante
Ariane, Ariane ...


"The Milkmaid", Vermeer, 1560.

clandestino


amo-te com minhas estranhas entranhas
e com as vísceras não vistas

amo-te com meus fluidos sem uso
e com a saliva esquiva

amo-te com minhas veias e artérias
alheia e etérea

amo-te com minhas amígdalas
protegida escondida

e amo-te como quem dorme
e amo-te como quem foge



"Tulips field in Holland", Monet, 1886.

B612


tenho um amor antigo e inútil
amor amigo e fútil
um amor platônico
que voa num avião supersônico

para uma longínqua galáxia
onde há cometas e estrelas
onde são distantes gametas
dessa íntima terráquea



(Poema a quem acredita no principezinho...)
"Boreas", Waterhouse, 1903.

flores incógnitas


por que insisto em ofertar gérberas
se continuam a lançar pedras?

por que cultivo margaridas
num terreno de tantas feridas?

por que semeio girassóis
buscando um calor que me corrói?

por que adoro violetas
em meio às cores neutras?

por que busco tulipas
num deserto à míngua?

por que tenho uma flor de lótus
cercada de destroços?

por que me sorriem orquídeas
nas paredes demolidas?

por que me chamam as rosas
à tela de natureza morta?

por que conservo um jardim
no estrato mais estúpido de mim?




"Poppy Field at Vetheuil", Monet, 1879.

Andorinha



quero uma andorinha
para me orientar
não quero andar sozinha
por sobre o mar

mas a andorinha que conheço
não é minha, é da Dora
e pra não pensar que não mereço
digo adeus e vou embora



"L'entree en scene", Magritte, 1961.

o sineiro


ainda toca o sino
o órgão, no íntimo
é Quasímodo


"Hombre mirando pájaros", Rufino Tamayo, 1950.

*anima e cuore





O que não tenho

senão os anéis no anular?






O que não tenho

senão os trapos a me indumentar?






O que não tenho

senão os sapatos a me civilizar?






_O que eu tenho, de fato, é nuclear!





"Red Ballon", Paul Klee, 1922.
*Republicação

davi e golias





do teu lado

às vezes quero ser pequena

dormir embalada e serena


do teu lado

às vezes quero ser grande

despertar enquanto te expandes


do teu lado

sou ser ínfimo e importante

ora gigante, ora infante





"Macieira I", Klimt, 1912.

* Receio


um amor dos gregos me veio
e eu que era bárbaro
impávido, tive medo




"O nascimento de Vênus" Botticelli, 1483.

* poesia feita ao ler "O paciente inglês", de Michael Ondaatje.

* Contratador


com trato
com dor
com trato e dor
contrato a dor
contra a dor
condor






"Casamento na roça", Portinari, 1946.
*Poesia feita pensando em Xica da Silva

rosa do medo


se meio medo


se meio rosas


sementes medrosas





"Wild Roses", Van Gogh, 1890.


A escolha


ele gostava da Prazeres

mas também da Norma


quando estava com uma

pensava na outra


quando estava com a outra

pensava na uma


de modo que um dia deixou as duas

por uma paixão sofrida e única


a Dolores por toda a vida

foi sua companhia





"Two Friends", Lautrec, 1894.


* Sitiante (à minha mãe)



Apartaste.


E aqui fica a certeza da alma nublada.
Arrancada dos muros do amor materno,
Conhecedor da destreza do poeta
Sabedor do ente parido

Confundiu-me a abóbada de teus cuidados
A transmutação do pranto em felicidade
Tão
profundamente humana e por isso
Afetuosamente desumana

Renovado o outono a cada instante
A educar os fragmentos de teus sorrisos ainda nesta morada
E o suplício de teu silêncio falante
A chover tua voz em brio

É ali a minha pátria, a mais remota casa.


O ditame ilimitado daquele mundo errante
Não se equipara ao irrelevante barro
Mas aos alísios de nordeste que trazem a precipitação
Dá vida e perpetua a vida

Retirei-me do abissal ventre da mulher deixando raízes
Plantando vestígios em outros colos
Pois aqui fora restou-me apenas

A tenra matéria de sua placenta





"Publicação especial para a Homenagem Coletiva do Dia das Mães, promovida pelo Fio de Ariadne.
Visite: http://fio-de-ariadne.blogspot.com


"A mãe e o filho", Gustav Klimt, 1905.

Angiosperma


meu coração é minha matéria


é por isso que quando meu corpo penetras


atinges também minhas artérias




"Danae", Gustav Klimt, 1908.


Etc. e tal


ser


a tal


a mor


a mal


altar mor


amoral


a normal


amor e tal


a mortal




"Bandeirinhas", Alfredo Volpi, 1960.



deleito-me em teus

seios, seios

com meus

dedos, dedos, dedos, dedos, dedos

e os

beijo, beijo

com

Desejo

Desejo

Desejo

Desejo

Desejo


Ópio


verti-me adulterado desde que te conheci

me corrompi, despertei de todo meu ócio

de tal modo que todos os caminhos que percorri

desembocaram nas tuas trompas de falópio


Tu


Tu és raiz quando me espalho

és caule em mim suportado

és folha em mim ornado

és fruto em mim maturado

Tu és seiva. Eu sou orvalho.




Espermanência

o meu gozo é sem fim

seja no teu contentamento

seja no teu desfalecimento

ainda espermaneces em mim



Jardim

Reparto-me e refaço-me.

Árvore.


A revestir-te e proteger-te.

Pétalas.



A aninhar-te em cada parte.

Folhas e caule.


A prender-te.

Raiz.


P(á)ra...


... não perder-te.

Jardim.




"Woman in the waves", 1868 (Courbet)
"Woman with white stockings", 1861 (Courbet)
"Lovers in the countryside", 1844 (Courbet)
"Young ladies at the bank of the Seine ", 1857 (Courbet)
"The origin of the world", 1866 (Courbet)

Polvo


teu rosto

leva-me

ao pescoço

leva-me

ao dorso

leva-me

ao gosto

leva-me

ao todo

leva-me

ao coito

leva-me

ao gozo

leva-me

ao rosto

leva-me

de novo


Ah, quisera ser um polvo!




"The death of Ophelia", Delacroix, 1853.