Precipitação


Estou a chover fragmentos

De um amor versado


Nesses pingos-excremento

Lavo-me em gotas de orvalho


Um sacrifício ofertado em lamento

Um pecado expelido, expiado


Gotículas em pedaços vertendo

Um sonho não acabado

Rima


Lamentaria entristecida

Essa estória interrompida


Em labirinto perdida

Em versos, constituída

Mas deveras sem poesia


Se não fosse a vida

Que quase nunca rima


É um verso branco

Em que ritmo e canto se dão

A depender de quem preenche o vão.

Súplica


Oh Deus!

Perdoe essa dor insípida

Em lágrimas vertida

Essa ovelha perdida

Ignorante, estúpida,

Incontida da vida

Em risos anoitecida

E em prantos amanhecida!

Xadrez


O dia numa caixa.

Enquadrada num quadrilátero.

Enformada num retângulo.

Checando o tempo a cada um quarto.

Às vezes, mirava pelo quadrado.

E via outros seres quadrados.

Via que nesse polígono de quatro

Eu estava fora de enquadre.

Isso me deprimia.

E em cada ângulo me via

Num quadro emoldurado,

Num tabuleiro quadriculado.

E nele rolava um dado

Que mostrava sempre o mesmo lado:

1, num quarto.

Passagens


Os dias deitam e levantam

As marés vêm e vão

As flores desabrocham

Os ventos em oscilação

Os pássaros migram

Cambia a estação

As coisas morrem, nascem, se renovam

Mas tu continuas a dizer não

Amputação


Percepção esquisita essa

Que uma perda gradual encerra

Um membro, uma parte, uma perna

Que se anula, se vai, se dilacera.


Resta somente a sombra da amputação

Como um amargo grilhão presente, dizendo não

Como um tormento pungente e vão

Por se ter invisivelmente a sensação.

Atrofia


Em minhas retinas

Miopias, hipermetropias

Quantas anomalias

Eu contaria?


Em meu coração uma atrofia

Traço de melancolia

Que me definha

Que me deixa sozinha.

Ponto



Sem versos, nem conto

Apenas um ponto

No branco

Encerrando

Um sonho.

Sertão do(a) Rosa


De tanto fazê c’um demo pacto

De redemunho em redemunho

Desrodeando a pôrtera do mundo

Um’ora quis dizfazê o trato.


Se o sinhô num acredita

Que vivê é perigoso no sertão da gente

É porque num tem alma, antesmente

Nem sente presença de neblina.


Quando ela se achega que nem garoa fina

Num tem capiroto que güente

Nem névoa que essa desmistura assente

Me alembro. Tinha medo. Carecia.


Todo mundo tem parte c’um capeta

Não pense o sinhô que é mentira

Porque opiniães, dizem só. Que-diga?

Há-de comprar briga nas vereda.


Fim de rumo nessa peleja

É correr o Rio pela Cabeceira

Mas o sinhô, seu moço, mire veja:

Arre! Do sertão essa doidêra ...

Imagens

Uma tênue alegria me acena

Quando chamas-me “pequena”

Iludo-me que sou ingênua

Como uma criança serena.


E acreditas ser eu quem minh’alma (em)cena

No entanto, não sou eu quem tu pensas

No fundo, me condenas, que pena!

De repente, te traí nesse poema...

Museu


Poderia não passar de um réptil

Não fosse um retrato

Poderia não passar de um fóssil

Não fosse o passado


Poderia haver pessoas

Não fosse o silêncio rompante

Poderia fixar-me na luz

Não fosse a treva circundante


Poderia não exibir réplicas

Não fosse a fragilidade do osso

Poderia não denotar verdade

Não fosse um antigo colosso


Poderia não ser estátua

Não fosse a memória preservada

Poderia não ser nada

Não fosse a lembrança petrificada.

Destino fortuito


Casos isolados ou freqüentes

Antigos e recentes

Fazem-me questionar:

Não podiam esperar?


Uma pessoa errante

Em um caminho distante

Ao dobrar a esquina

A me trombar. Uma sina?


Um acontecimento repentino

Que mais parece um desatino

Permanece sem pestanejar

Com insistência a me provocar (...)


Um homem doente

Uma mulher descontente

São escolhas da vida

Ou lições que ela ensina?


Sofrimento no peito

Amor sem conserto

Relógio ajustado

Com ponteiros do passado?


Vontades e fatalidades

Corroendo nossas verdades

Acasos do destino

Ou força do arbítrio?

Carícia, enfim


Se quiseres, podes dar-me um abraço

Apertado, pacífico e sereno

De aconchego, em que me enlaço

Num sossego calmo e lento.


Mas, por outro lado, se quiseres dar-me um beijo

Molhado, doce, de alento

Retribuo com um conhecido jeito

Demorado, apaixonado, intenso.

Vazio (à Ericka, sementinha minha)


Algo indefinível

Preenche-me invisível

Ata-me e consome

Deixa-me insone


Lacunas e espaços

Um vazio (com)passo

Que se move e se expande

Dentro de mim errante


Ele nunca preencho

Pois quando preencho me reinvento

Já não sou mais aquele de antes

Sou um vácuo constante


Enchendo meu poço

Transbordo triste e louco

E na abundância entornada

Novamente com a alma esvaziada

Cabelos Brancos


Cabelos brancos

Conta-los não pudera

Solitários. Mas quantos?

Embaralhados em relva.


Cabelos brancos

Emaranhados de mazelas

Em meio aos pretos, tantos

Sinais de quimeras.


Cabelos brancos

Esconde-los quisera

Em meio aos prantos

Algumas bagatelas.

Sonho


Esta noite tive um sonho, um sonho maldito

Intenso, que não terminava

Mas não eras tu quem eu acariciava

Pois não eras tu aquele ser onírico.


Um sonho mentiroso e bonito

Em que me acalentavas

Mas não eras tu quem me abraçavas

Pois não eras tu naquele sorriso.


Acordei desse sonho magoado e sofrido

Para mim não adicionava nada

Mas não eras tu quem aqui estavas

Pois me despertava um desconhecido.

Moldura


Essa comida não digerida

Essa viagem interrompida

Essa palavra não dita

Essa dor não sofrida

Essa paixão não vivida

Resumida, comprimida

Numa moldura contida.

Presente


Ontem por incidente

Percorri a trilha do passado

E notei que embora estático, era presente.

Com uma sensação crescente

Senti-me demente

Um pouco incompetente

Por estar consciente

De que não estava ausente

De uma realidade envolvente

E me traía impaciente

Impotente

Com um ser incongruente

Definitivamente inconcludente.

Náufrago


Lancei-me ao mar na busca vã de te encontrar

Não sabia mais como esperar ver-te ao porto chegar

Nesse maritmo trôpego de ondas tamanhas

Sofri no frêmito balanço de tuas façanhas.


Entranhando-me no breu de meu ser louco, desencontrado e sôfrego

Resolvi voltar náufrago às docas, cambaleante e torto

A aguardar-te numa solidão desafinada e rouca com esperança pouca

De navegar outra vez nas águas de tua boca.

Meu coração


Meu coração é um carro desgovernado

Músculo enfermo, partido, descontrolado

Mecânico e sem câmbio automático

Que circula desvairado, desregulado

Marcando passo apressado, desajustado

Por um amor gentil, vil, desenfreado

Que partiu, fugiu, dormiu anestesiado

E me deixou assim, sem mim, sem porvir, dilacerado.

Prece ao Vento


Oh, Ventos de desgosto

Que meu rosto transpassam

Movimentos sem gosto

Que de mim tudo arrastam!


Aquietem-se em minh’alma

Sosseguem meu corpo

Como sopro leve e brisa calma

Quanto um sussurro morto.

Reticência


Uma reticência em nossa estória

Uma infinita que nunca será dita

Uma remissiva sem memória

Deixando-me uma sensação esquisita

De indolência, indecência mórbida

Que jamais finda...

Franqueza


O fato é que

Se eu não descartar o que me tem consumado

E esquecer o que me tem ocorrido

Não me protegerei de fato

E o ato me terá consumido.

Poetando-me


Não projetei ser poema

Alexandrino, decassílabo ou coisa afim

Poesia marcada, compassada

Ou tradicional assim.


Pensei ser poema brando

Tônico e sonoro

Mas fez-me branco

Átono, inodoro.


Sem ritmo ou composição

Transformou-me em pranto

E a metrificação

Sem voz de acalanto.


Estrutura fixa, isométrica

A mim não cabia

Recusei a forma clássica

Conservando apenas o tom de elegia.


Rimas e versos como os teus me nego

Firmo-me no lirismo e na liberdade

E em estrofe expresso: amo e protesto

Como quem se conta em catarse.

Baú


No meu baú de amores

Entre

Objetos e palavras,

Roupas e dores

Flores e rancores

E alguns temores

Bem ao fundo da memória

Num canto breu de histórias

Encobertamente, encontrei-te

Jogado, obsoleto, maltrapilho.

Como se empoeirasse o presente

E revivesse o antigo

Fechei-o, decidida e bruscamente

A não mais versar esse estribilho.

Meus poemas


Meus poemas não sou eu.

Nem maiores que eu.

São facetas parciais

Que em mim não cabem mais.

Introspectivos, individuais,

Mas não são meus.

Nem melhores que eu.

Às vezes, são piores, menores.

Não transcendem a linha.

São saídas utópicas de uma vida

Que, metaforizada, se finda.

Meus poemas não sou eu.

São papel qualquer, traço de mulher.

E nesse mar de pronomes pessoais

Encontram-se pequenos e vãos

Iguais, desiguais desvãos

Onde versos inversos se aninham

E outros seres poéticos oscilam.

Pronominal


Eu querer-te-ia mesóclise

Mas, nos quis próclise

E ora, pronominalmente, queres-me ênclise

Desenho


Desenhaste uma linha imaginária

Uma horizontal a qual não correspondi

Não havia sorte ali delineada,

Em traços tortuosos eu a verti.


À medida que o risco esboçavas

Perdia-me no horizonte desses nós

Alinhavados na garganta travada

Como paralelas alinhadas, sós.

Pensamento


O tempo passa tão devagar...

Como divaga meu pensamento!

Intento, invento

Aumento, experimento

Esse tormento...

Idéias ao vento.

E silêncios...

Das Negativas


Intento não conhecer

Intento não pensar

Onde andarás? Como está você?


Intento não sentir

Intento não questionar

Por que te vi? Por que te vi?


Intento não querer

Intento não falar

Como ignorar, como não saber?


Intento não responder

Intento não revelar

Que fazer quando te ver?


Intento não fugir

Intento não esconder

Como fingir, como dormir?


Intento não sofrer

Intento não amar

Não te desejar é não ser?

Receita à moda de...

INGREDIENTES

- uma porção grande de beijos

- uma boa dose de abraços

- uma quantidade considerável de cheiros

- só certas palavras.

PREPARO

Misturar tudo em um recipiente profundo. Temperar a gosto. Em seguida, mexer lentamente. Deixar atingir a temperatura ideal. Servir, imediatamente.

Obs.: Tomar cuidado para em outro ser, em outra parte, o aroma não reconhecer.

Desert(o/ar)


Nosso amor tornou-se árido.

Entre as pedras não flui mais o vermelho.

Fez-se barreira, infarto

Seco em minhas veias

Enrijecido como torrão.


Nosso amor tornou-se vão

Deserto inabitável

Rio coagulado, pausado

Terra de solidão

Sem precipitação.


Nosso amor tornou-se estéril

Ermo, paralisado

Fluido viscoso, imóvel

Lugar branco venoso

Improdutivo, sem irrigação.

Miragem


Se te ultrapasso as fronteiras, amor

Atravesso-te em guarda

Encontro espinho em flor

É porque o farol desconhece até onde alcança

Seus rastros de luz

Nesse ermo de barreiras que a nada conduz.

Porque na linha, horizonte não vejo, precipício

Porque és uma imagem trêmula

Intocável

Em toda parte

No deserto de mim.

Esquemas


Memorandos e portfólios

Declarações e certidões

De nascimento, negativas, óbitos

Tentando burlar o óbvio.


Religiosos querendo se salvar

Gordas tentando entrar num vestido

Acadêmicos formatados

Timbrados com seus títulos.


Políticos em série.

Homens de terno moldados.

Mulheres de peitos siliconados.

Adolescentes buscando se enquadrar.

Velhos infelizes por não.


Abcissas e coordenadas

Planos de aula

Relatórios e atas

Projetos e gráficos

São bruscamente comprimidos.


Pelo súbito

Repentino

Improvisamente

Inquilino.


1 minuto a mais, 1 minuto a menos,

São atropelados os esquemas

Pelo incidente na próxima esquina...

Incógnita


Se dizes quem és, já não és.

Se digo quem sou, já não sou.

Se vives assim, o inominável

Se vivo assim, o indizível

Somos todos e nenhum,

Tudo e nada somos.

És interrogação

E todas as possibilidades.

Sou incógnita

E todas as probabilidades.

Mas, se seremos, já não sabemos.

Se sumirmos, já não somos.

Já não somos,

Já não somos.

A Criação


Um dia, um rei dessas estórias de “era uma vez”

Assinou uma lei que dizia: “todos deveriam amar”.

O pobre coitado havia esquecido que não se ama por decreto, somente por afeto.


Um outro dia, esse mesmo rei baixou uma resolução

Que afirmava que “todos deveriam seguir seu coração”.

Esqueceu mais uma vez que o reino era governado pelo brasão da razão.


Mais tarde quando percebeu que suas tentativas não funcionavam de fato

Tomou uma medida provisória drástica: “todos deveriam então se apaixonar”.

Funcionou por um tempo até quando um plebeu saiu por aí a dizer um boato.


Este espalhou pelas cercanias que o rei era louco

Que não poderia opinar nem governar

Porque os sentimentos do mundo eram de caráter profundo.


Que deveria cuidar da monarquia

Combater a tirania

E eliminar as epidemias.


De tal sorte, o rei percebeu que não havia muito que fazer

Ao que dizia respeito aos assuntos do coração

E que mandar em todos seria uma imposição.


Logo, ficou triste e essa sensação lhe deu uma última imaginação:

Pensou então que poderia, de maneira formal e irrevogável,

Criar uma social e feliz instituição...