passagens



todas as trilhas

por onde passam meus desejos

são buscas


todas as linhas

por onde andam meus dedos

são curvas


todas as estradas

por onde cruzam meus medos

são duas


todas as milhas

por onde percorrem meus anseios

são além-lua


todas as veredas

por onde meus versos escrevo

são tuas



"Dancer", Joan Miró, 1925.

Fingere II


etnemairartnoc sarvalap sa overcse

metnem oãn sale es rev arap





"Autumn in the village", Chagall, ?


Flores do Ipê


rosas

tantas delas em cópula


amarelas

Van Goghs nas janelas


violetas

ventania de borboletas


brancas

nuvens flutuantes nas plantas


(...)


nessa época, quem não vê

as flores fartas do ipê?



"The Mulberry Tree, Van Gogh, 1889.

* Cansaço



Cansei do Bilac!

Prefiro ser poeta num traço.

Procuro um verso e tropeço n’outro!

Tento seguir a linha, mas ando trôpego!

E descalço!



"A italiana", Matisse, 1916
* Republicação

Passagem


o outono anda sob meus pés
e eles folhescem




"Beech Forest", Gustav Klimt, 1902.

para que serve o poema


para que serve o poema

se me ferve, me queima

não segue esquemas

nem lemas

se sai leve ou a duras penas

nada ergue, nada perde

não importa o tema

para que serve o poema

se é apenas




"Tarde clara", Fernando Fader, 1923.

chorão



eu bem-te-vi chorão
mas bem não estavas
pois havia folhas no chão



"La niña de las mariposas", Leonidas Gambartes, ?


Amigos do blog,
estive voando por ares argentinos...
Agora volto para continuar meus escritos.
Agradeço a todos que aqui vieram durante esse período
que defino como uma espécie de retiro...
Sejam sempre bem vindos!!!

*Outono



Gostaria perder-me no outono
Em algum bosque de ouro
Num adeus, me diriam: "_tolo"
E meus rastos já não teriam dono

Mas esconder-me entre as amarelas
Fartas folhas e tantas
Entristeceria em ocre medonhas
O desabotoar das próximas gérberas!




"A Wooded Path in Autumn", Brendekilde, ?

*Republicação

menininho (a Eros)


menininho não cresça assim tão rápido

fito teus olhinhos de vidro


tenho um passo a frente, outro atrás

a vigiar os teus apressados e corridos


já atravessas a rua tranquilo

e fico a te pensar sozinho e duvido


meu cupido distraído

não tropeces no paralelepípedo


não esqueça o calçado

tem muito micróbio no piso


estás a fazer supermercado

eu ainda a te dar pirulitos


queria-te infante, comigo

mas sei que é errante teu destino


menininho, és meu gigante perdido

e sei, te vais, tornar-se-á mais pequenino




"Mother and child", Picasso, 1907.

ciranda do medo


o medo de perder o medo

de perder o medo de perder

o medo de perder o medo


perder o medo de perder o

medo de perder o medo de

perder o medo de perder


o medo de perdê-lo




"Melancholy", Edward Munch, 1891.


o pássaro engaiolado


sonha a montanha

do lado de fora

a brisa canta

da gaiola

eu o vi

triste, sem esporas

eu o vi

livre e ainda chora

por que não vai embora



"A Soul Brought to Heaven", William-Adolphe Bouguereau, 1878.

* sonho


Esta noite tive um sonho, um sonho maldito

Intenso, que não terminava

Mas não eras tu quem eu acariciava

Pois não eras tu aquele ser onírico.


Um sonho mentiroso e bonito

Em que me acalentavas

Mas não eras tu quem me abraçavas

Pois não eras tu naquele sorriso.


Acordei desse sonho magoado e sofrido

Para mim não adicionava nada

Mas não eras tu quem aqui estavas

Pois me despertava um desconhecido.




"Os Amantes", Magritte, 1928

* republicação