clandestino


amo-te com minhas estranhas entranhas
e com as vísceras não vistas

amo-te com meus fluidos sem uso
e com a saliva esquiva

amo-te com minhas veias e artérias
alheia e etérea

amo-te com minhas amígdalas
protegida escondida

e amo-te como quem dorme
e amo-te como quem foge



"Tulips field in Holland", Monet, 1886.

excuses


it would be too easy
if I wasn't busy

it would be so cool
if I wasn't fool

it would be nice
if I wasn't quiet

it would be so glad
if I wasn't depressed

it would be terrific
if I wasn't sick

it would be safe
if I wasn't afraid

it would be pretty great
if I wasn't passionate



"Adolescence", Petrov-Vodkin, 1913.

B612


tenho um amor antigo e inútil
amor amigo e fútil
um amor platônico
que voa num avião supersônico

para uma longínqua galáxia
onde há cometas e estrelas
onde são distantes gametas
dessa íntima terráquea



(Poema a quem acredita no principezinho...)
"Boreas", Waterhouse, 1903.

fear


I'm facing my fear
I don't wanna frame a lie
I'm the one who cries
after dries the tears

I'm facing my fear
I'm leaving behind
entirely the tries
I suffered to clear

facing my fear
like a butterfly
which is still lying
in a caterpillar



"The Concert", Chagall, 1957.

time


as time passes by
people come to life
as time passes fast
people come to death

as time grows old
we get so
less
instead
"Meditative Rose", Dali, 1958.

insônia III



alta madrugada
madruga na calçada
eu ainda acordada
e a noite é quase nada




"The Artist in His Studio", Rembrandt, 1692.

veredas



não importa se direita
ou esquerda
as veredas que adentro
são estreitas

"Nude woman drying her foot", Degas, 1886.

poema fraternal



Caim e Abel
Van Gogh e Theo

Como buscar o elo perdido
entre dois filhos?

Como ir de mãos dadas
almas tão fragmentadas?



"Cypresses with Two Female Figures", Van Gogh, 1889.

apenas



apenas
um
apenas

um
apenas

um


"La espera", Gambartes, 1960.

Down



que mau
o meu baixo astral
que mal

eu ando tão down
eu ando tão down




"Tristeza do Rei", Matisse, 1952.

abraço




às vezes meus braços são de aço
às vezes são só laços
e são, às vezes, sem embaraço
meu próprio baço

e mesmo assim

só caçam ossos, o cálcio de outros braços
para cessar os traços dos espaços
no estrado, no colágeno
por um breve e bravo instante

no tácito e impávido teu abraço




"Fulfillment", detail of "Tree of life", Klimt, 1909.

vitória-régia


por que me atraem os solos áridos
com suas pedras e cactus?

não por que sou uma bromélia
briófita sentinela

que sempre estou à espera de um sedento
perdido em campo ermo

e sendo eu aquela de úmidas pétalas
uma miúda vitória régia

que seguirei meu destino
nas superfícies de um sereno rio...




"Women by the water", Seurat,?.