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ave poema


poesia minha
poeminha
bico de pena
avezinha
leve pequena
ave poema!


"A cadeira de Van Gogh", Van Gogh, 1890.

libélula


Lila,
a libélula,
leva a vida
livre e bela
lava a pele
se embeleza

ali vai ela
que não vive
numa cela
elevar-se leve
lá na tulipa
amarela
...


"Poppy Flowers", Van Gogh, 1887.

gaivota


ela era uma gaivota
embora fosse
fosse embora
seu horizonte era uma porta
"Magic Garden", Klee, 1926.

Andorinha



quero uma andorinha
para me orientar
não quero andar sozinha
por sobre o mar

mas a andorinha que conheço
não é minha, é da Dora
e pra não pensar que não mereço
digo adeus e vou embora



"L'entree en scene", Magritte, 1961.

* Contratador


com trato
com dor
com trato e dor
contrato a dor
contra a dor
condor






"Casamento na roça", Portinari, 1946.
*Poesia feita pensando em Xica da Silva

o pássaro engaiolado


sonha a montanha

do lado de fora

a brisa canta

da gaiola

eu o vi

triste, sem esporas

eu o vi

livre e ainda chora

por que não vai embora



"A Soul Brought to Heaven", William-Adolphe Bouguereau, 1878.

Pena



entre nuvens

minha mente

a voar


como penugem

o que sente

se afastar


perto do lume

o remanescente

é penar




"Couple with a Parrot", Pieter de Hooch, 1668.


Dueto Descaracterizado



Pássaros sem asas
só voam em metáforas!
"Fall of Icarus", Brueghel, 1560.

Sentimentos Alados



Meus sentimentos têm asas

E não sabem voar rente ao chão

Ainda que sejam cortadas

Mais belas e livres são!


E se do alto, mais distante é o alvo

Buscam então a sublime imensidão

Do vôo perdido azul no espaço

De um coração calmo e sem grilhão!




"Meninos soltando pipas", Portinari, 1943.


Poetando-me


Não projetei ser poema

Alexandrino, decassílabo ou coisa afim

Poesia marcada, compassada

Ou tradicional assim.


Pensei ser poema brando

Tônico e sonoro

Mas fez-me branco

Átono, inodoro.


Sem ritmo ou composição

Transformou-me em pranto

E a metrificação

Sem voz de acalanto.


Estrutura fixa, isométrica

A mim não cabia

Recusei a forma clássica

Conservando apenas o tom de elegia.


Rimas e versos como os teus me nego

Firmo-me no lirismo e na liberdade

E em estrofe expresso: amo e protesto

Como quem se conta em catarse.

Acerca da Loucura

“(...) Mais louco é quem me diz

E não é feliz, não é feliz!”


Há dois dias estive no encerramento da 1ªMostra de Arte Insensata realizada pelos Centros de Convivência de portadores de sofrimento mental. Os centros visam ao restabelecimento dessas pessoas na sociedade. O evento foi curioso porque ocorreu um fato estranho para nós, aprisionados. Bem no meio da multidão uma pessoa literalmente tirou as calças e acocorou-se para defecar enquanto o Tom Zé, performático, executava o seu show, não menos extraordinário. Nessa hora, as atenções não estavam voltadas para ele. No entanto, nós todos ditos “normais”, ficamos a observar aquela cena, aparentemente sem risos nem choques. O que não quer dizer que não houvesse de nossa parte certa repugnância pelo ato, afinal somos “normais”. O interessante é que as colegas da mulher começaram a batê-la e recriminá-la pelo ocorrido, o que me fez pensar momentaneamente que “trocamos as bolas”. De fato, “alguma coisa estava fora da ordem mundial”. Logo depois, contrariando esse pensamento concluí: trocamos sempre, de humor, de roupa, de lugar. E nessa troca, pendulamos entre a razão e a loucura; entre a sobriedade e a embriaguez; entre a honra e a insensatez. Acerca desse último estado indesejado, debrucei-me sobre o seu conceito no dicionário Prático da Língua Portuguesa. Encontrei alguns significados interessantes como: “imprudência”, “temeridade” e “extravagância“. Essas definições estão bem mais próximas da nossa vida do que a “alienação mental com modificação profunda da realidade”. Todavia, não encontrei algo que me parecia mais apropriado para o tresvario considerado na esfera social. A meu ver, a loucura está imbricada com as questões de adequação, adaptação e conformidade na sociedade. Ou seja, todo aquele que não se enquadra muito às leis, às normas religiosas, sociais e culturais “encaixa-se” nesse universo desvairado. Mas todos nós em algum momento estamos fora de footing (enquadre) linguisticamente falando. Quem nunca chorou quando todos esperavam um sorriso, ou vice-versa? Quem nunca “berrou” contra a palavra mais doce do mundo? Quem nunca calou na hora que deveria falar? Ou falou na hora que deveria calar? O louco tem a liberdade plena! Não estou levantando bandeiras aqui. Sem mediações, não existiriam possibilidades de convivência. Entretanto, como seria bom que entrássemos em contato com esse lado infantil, primeiro, esquecido pelos anos de domesticação social. Como seria bom viver sem autocensuras, sem auto-reprimendas... O louco é totalmente livre. Não há barreiras que o impeçam. Pode-se até mesmo ser Napoleão! E travar batalhas com moinhos de vento! Sem os loucos, não haveria literatura! Além dos visionários, ainda há os alienados, os mentecaptos, pra não falar dos utópicos! Um médico uma vez me disse que a linha entre a sanidade e a loucura é muito tênue e que ela poderia se romper em um instante de fragilidade psíquica. Talvez essa decisão de “blogar” esse fato tenha sido uma pequena ruptura. Ou não. Decidam vocês! (...) A propósito, a Mostra foi linda!