flores
amor barroco
quando a mariposa
se acerca do candeeiro
não sabe que seu beijo
trairá a sua boca
quando o candelabro
tentando ser inteiro
ilumina o seu negro
a sacrifica desencontrado
e o que é encanto profundo
esvanece na luz do roceiro
que não pode ser feito
noturno, perfeito, fecundo
*Tragedy on Morgue Street
a glass of wine and a knife
he wasn´t a glad valentine
time
as time passes by
people come to life
as time passes fast
people come to death
as time grows old
we get so
less
instead
*Outono
* Prece ao Vento
Oh, Ventos de desgosto
Que meu rosto transpassam
Movimentos sem gosto
Que de mim tudo arrastam!
Aquietem-se em minh’alma
Sosseguem meu corpo
Como sopro leve e brisa calma
Quanto um sussurro morto.
*Republicação
Luto
e o gato preto cruzou a noite parecendo intensificá-la
e a lua com lágrimas de kajal seu rosto borrava
e a rua não me guiava escura em seu asfalto
e eu vagava enquanto um corvo entoava um grito enfático
e as cores das casas combinavam com minha sombra ao lado
...
os olhos dele eram negros
eu luto
"Des pauvres au bord de la mer", Picasso, 1903.
Outono

Gostaria perder-me no outono
Em algum bosque de ouro
Num adeus, me diriam: "_tolo"
E meus rastos já não teriam dono
Mas esconder-me entre as amarelas
Fartas folhas e tantas
Entristeceria em ocre medonhas
O desabotoar das próximas gérberas!
"A Primavera", Monet, 1886.
Essa parte que cala
Essa parte rígida que cala
Em mordaça apaziguada
É também adaga que transpassa
Os espaços contidos n'alma.
Essa parte fria que cala
É vão adormecido em calhas
Animal contido em jaula
Flor que não mais exala.
Só não me peçam para negá-la
Pois que em cruz já esteve ilhada
Não poderia mais abandoná-la
No leito escuro das valas!
"Philosopher in Meditation", Rembrandt, 1632.
Natureza Morta
Soneto aos Mortos

Receio às pálidas mãos dos covardes
Que têm num traço de lamento na palma
Um texto desencontrado na sobretarde
E um séqüito de palhaços na alma.
Receio àqueles que vivem no escuro
Amarelos como fruto sem gosto e imaturo
Dependurados em árvore, estrangulados
Nas cordas do medo ou em cima do muro.
Não me domam receio e pranto
Não sou mulher de brutas alcovas
Nem enterro em covas meus acalantos.
Mas emprestado peço ao impávido a Boca do Inferno
Ao intrépido Dos Anjos, o cemitério, para num leito
Frio e calmo, deitar aos mortos, meus últimos versos.
"A morte do toureiro", Picasso, 1933.




