"Dânae", Klimt, 1908.
Percevejo
Jasmim
abraço

às vezes meus braços são de aço
às vezes são só laços
e são, às vezes, sem embaraço
meu próprio baço
e mesmo assim
só caçam ossos, o cálcio de outros braços
para cessar os traços dos espaços
no estrado, no colágeno
por um breve e bravo instante
no tácito e impávido teu abraço
"Fulfillment", detail of "Tree of life", Klimt, 1909.
* Serpente (para Erosss)

Saindo
Sozinha do sótão
Surucucu cinza
Na sala serena
Ensaiando
Um sambinha
Sério, silencioso
Sorrateiramente
Suavemente
Sob meus sapatos
Circundante, cerceante
Sorvendo meu sangue
Traçando no seio
Uma percussão de susto
Um som surdo
No compasso
De um sinuoso segundo
Sssssssssssssssssssssssssss
davi e golias
do teu lado
do teu lado
do teu lado
Passagem
Waiting in
* Sitiante (à minha mãe)
Apartaste.
E aqui fica a certeza da alma nublada.
Arrancada dos muros do amor materno,
Conhecedor da destreza do poeta
Sabedor do ente parido
Confundiu-me a abóbada de teus cuidados
A transmutação do pranto
Tão
Afetuosamente desumana
Renovado o outono a cada instante
A educar os fragmentos de teus sorrisos ainda nesta morada
E o suplício de teu silêncio falante
A chover tua voz em brio
É ali a minha pátria, a mais remota casa.
O ditame ilimitado daquele mundo errante
Não se equipara ao irrelevante barro
Mas aos alísios de nordeste que trazem a precipitação
Dá vida e perpetua a vida
Retirei-me do abissal ventre da mulher deixando raízes
Plantando vestígios em outros colos
Pois aqui fora restou-me apenas
A tenra matéria de sua placenta
Visite:
"A mãe e o filho", Gustav Klimt, 1905.
Angiosperma
meu coração é minha matéria
é por isso que quando meu corpo penetras
atinges também minhas artérias
"Danae", Gustav Klimt, 1908.





