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Percevejo


eu percebo
eu vejo

e dói

"Dânae", Klimt, 1908.

Jasmim


Sementinha de mim.
Sementinha minha.

Sem mim.

Jaz em mim
um jasmim.

"Apple Tree", Klimt, 1903.

abraço




às vezes meus braços são de aço
às vezes são só laços
e são, às vezes, sem embaraço
meu próprio baço

e mesmo assim

só caçam ossos, o cálcio de outros braços
para cessar os traços dos espaços
no estrado, no colágeno
por um breve e bravo instante

no tácito e impávido teu abraço




"Fulfillment", detail of "Tree of life", Klimt, 1909.

* Serpente (para Erosss)



Saindo
Sozinha do sótão
Surucucu cinza
Na sala serena
Ensaiando
Um sambinha
Sério, silencioso
Sorrateiramente
Suavemente
Sob meus sapatos
Circundante, cerceante
Sorvendo meu sangue
Traçando no seio
Uma percussão de susto
Um som surdo
No compasso
De um sinuoso segundo
Sssssssssssssssssssssssssss


Detalhe de "Serpentes Aquáticas", Klimt, ?.
*Republicaçao

davi e golias





do teu lado

às vezes quero ser pequena

dormir embalada e serena


do teu lado

às vezes quero ser grande

despertar enquanto te expandes


do teu lado

sou ser ínfimo e importante

ora gigante, ora infante





"Macieira I", Klimt, 1912.

Passagem


o outono anda sob meus pés
e eles folhescem




"Beech Forest", Gustav Klimt, 1902.

Waiting in


waiting my time

wasting my turn

waiting my turn

wasting my time




"The waiting", Klimt, 1905.

* Sitiante (à minha mãe)



Apartaste.


E aqui fica a certeza da alma nublada.
Arrancada dos muros do amor materno,
Conhecedor da destreza do poeta
Sabedor do ente parido

Confundiu-me a abóbada de teus cuidados
A transmutação do pranto em felicidade
Tão
profundamente humana e por isso
Afetuosamente desumana

Renovado o outono a cada instante
A educar os fragmentos de teus sorrisos ainda nesta morada
E o suplício de teu silêncio falante
A chover tua voz em brio

É ali a minha pátria, a mais remota casa.


O ditame ilimitado daquele mundo errante
Não se equipara ao irrelevante barro
Mas aos alísios de nordeste que trazem a precipitação
Dá vida e perpetua a vida

Retirei-me do abissal ventre da mulher deixando raízes
Plantando vestígios em outros colos
Pois aqui fora restou-me apenas

A tenra matéria de sua placenta





"Publicação especial para a Homenagem Coletiva do Dia das Mães, promovida pelo Fio de Ariadne.
Visite: http://fio-de-ariadne.blogspot.com


"A mãe e o filho", Gustav Klimt, 1905.

Angiosperma


meu coração é minha matéria


é por isso que quando meu corpo penetras


atinges também minhas artérias




"Danae", Gustav Klimt, 1908.