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No rasgo dos teus versos


sensação esquisita de incesto

trair meu coração

no rasgo dos teus versos


como se fosse desonesto

furtar daquele instante

fugaz um momento eterno




"A Carta", Alfredo Keil, 1874


Deus não lê poesia


De que adianta sangrar em papel as dores fugidias?

Implorar aos céus a vida que eu queria?


Súplicas em escarcéu são rasgos e amassos!

Minha pena tem mais o que rogar do que rezar ao léu!


De que adianta prostrar-me, feito réu, perante os versos

Que aqui encerro com aparente apatia?


Ademais, Deus não lê poesia!




"Moça lendo carta", Vermeer, 1657.

Cansaço


Cansei do Bilac!

Prefiro ser poeta num traço.

Procuro um verso e tropeço n’outro!

Tento seguir a linha, mas ando trôpego!

E descalço!




"Mulher com chapéu", Di Cavalcanti, 1940.


Meus poemas


Meus poemas não sou eu.

Nem maiores que eu.

São facetas parciais

Que em mim não cabem mais.

Introspectivos, individuais,

Mas não são meus.

Nem melhores que eu.

Às vezes, são piores, menores.

Não transcendem a linha.

São saídas utópicas de uma vida

Que, metaforizada, se finda.

Meus poemas não sou eu.

São papel qualquer, traço de mulher.

E nesse mar de pronomes pessoais

Encontram-se pequenos e vãos

Iguais, desiguais desvãos

Onde versos inversos se aninham

E outros seres poéticos oscilam.