sensação esquisita de incesto
trair meu coração
no rasgo dos teus versos
como se fosse desonesto
furtar daquele instante
fugaz um momento eterno
"A Carta", Alfredo Keil, 1874
"o poeta é um fingidor..."
sensação esquisita de incesto
trair meu coração
no rasgo dos teus versos
como se fosse desonesto
furtar daquele instante
fugaz um momento eterno

De que adianta sangrar em papel as dores fugidias?
Implorar aos céus a vida que eu queria?
Súplicas em escarcéu são rasgos e amassos!
Minha pena tem mais o que rogar do que rezar ao léu!
De que adianta prostrar-me, feito réu, perante os versos
Que aqui encerro com aparente apatia?
Ademais, Deus não lê poesia!
Meus poemas não sou eu.
Nem maiores que eu.
São facetas parciais
Que em mim não cabem mais.
Introspectivos, individuais,
Mas não são meus.
Nem melhores que eu.
Às vezes, são piores, menores.
Não transcendem a linha.
São saídas utópicas de uma vida
Que, metaforizada, se finda.
Meus poemas não sou eu.
São papel qualquer, traço de mulher.
E nesse mar de pronomes pessoais
Encontram-se pequenos e vãos
Iguais, desiguais desvãos
Onde versos inversos se aninham
E outros seres poéticos oscilam.