Eleonora
sempre quis ser o que
antes fôra
até que o tempo encarregou-se
de mostrá-la que
era tola
que já caíra a gota
e da árvore a folha
ela seria a outra
"o poeta é um fingidor..."

como se não houvesse hora
o passado estático nas costas
como passamos é para ontem
e como também o é para agora
"Duas mulheres à janela", Bartolomé Esteban Murillo, 1670.
O sentimento da poesia não existe.
O que existe é a poesia de sentimento.
No momento em que a poesia se pronuncia,
Há muito o sentimento já se perdia.
Dobrou a esquina quando eu ainda não via!
Poderia não passar de um réptil
Não fosse um retrato
Poderia não passar de um fóssil
Não fosse o passado
Poderia haver pessoas
Não fosse o silêncio rompante
Poderia fixar-me na luz
Não fosse a treva circundante
Poderia não exibir réplicas
Não fosse a fragilidade do osso
Poderia não denotar verdade
Não fosse um antigo colosso
Poderia não ser estátua
Não fosse a memória preservada
Poderia não ser nada
Não fosse a lembrança petrificada.
Ontem por incidente
Percorri a trilha do passado
E notei que embora estático, era presente.
Com uma sensação crescente
Senti-me demente
Um pouco incompetente
Por estar consciente
De que não estava ausente
De uma realidade envolvente
E me traía impaciente
Impotente
Com um ser incongruente
Definitivamente inconcludente.