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flores


veja sobre o túmulo as flores
veja: sobre o túmulo, há flores

"Promenade", Chagall, 1918.

Neste Natal



Neste Natal
recuso-me a ser superficial
não quero as conversas fáticas
nem as relações fálicas
quero a intensidade, o apego
embora tenha medo

Neste Natal
recuso os preconceitos, o desprezo
quero ser diverso e igual
como verso impresso e digital
como o sorriso negro e virginal
embora seja leigo

Neste Natal
recuso a espera eterna
que me caiba o antigo jeans
a crença de que a ortografia
com o trema melhor ficaria
e a coluna do meio, pois sou inteiro

Neste Natal
recuso-me a ser posseiro
não tenho fama nem dinheiro
quero andar descalço na grama
mas sem pisar no formigueiro
dar boas vindas à mudança
pois é chato ser o mesmo

Neste Natal
recuso-me a me depreciar
se eu não me poupar, quem o fará?
aprendi que se amar não é só incumbência
mas também sobrevivência
nisso eu creio

Neste Natal
quero um novo lema
apesar das perdas, tudo me acena
não quero a pena nem a queixa
nada que me anoiteça
ainda que seja o final da cena
e o umbral do poema...


"A Sagrada Família Canigiani", Rafael, 1508.

time


as time passes by
people come to life
as time passes fast
people come to death

as time grows old
we get so
less
instead
"Meditative Rose", Dali, 1958.

ciranda do medo


o medo de perder o medo

de perder o medo de perder

o medo de perder o medo


perder o medo de perder o

medo de perder o medo de

perder o medo de perder


o medo de perdê-lo




"Melancholy", Edward Munch, 1891.


* Amputação



Percepção esquisita essa

Que uma perda gradual encerra

Um membro, uma parte, uma perna

Que se anula, se vai, se dilacera.



Resta somente a sombra da amputação

Como um amargo grilhão presente, dizendo não

Como um tormento pungente e vão

Por se ter invisivelmente a sensação.






"Mlle Rose", Delacroix, 1820.

*Republicação