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Cisco


esse cisco
em meu íntimo
sucinto, ínfimo
eu insisto e cismo
só sinto sísmico
infinito

"Self-Portrait", Van Gogh, 1889.

canção do exílio


ah eu quero voltar à Bahia
as aves não gorjeiam aqui em Min...as

"Margens de Les Saint-Maries", Van Gogh, 1888.

ave poema


poesia minha
poeminha
bico de pena
avezinha
leve pequena
ave poema!


"A cadeira de Van Gogh", Van Gogh, 1890.

libélula


Lila,
a libélula,
leva a vida
livre e bela
lava a pele
se embeleza

ali vai ela
que não vive
numa cela
elevar-se leve
lá na tulipa
amarela
...


"Poppy Flowers", Van Gogh, 1887.

eucalipto


pus o que sinto
na copa de um eucalipto
entre o ínfimo e o infinito
o equilíbrio

"Two Poplars on a Road through the Hills", Van Gogh, 1890.

poema fraternal



Caim e Abel
Van Gogh e Theo

Como buscar o elo perdido
entre dois filhos?

Como ir de mãos dadas
almas tão fragmentadas?



"Cypresses with Two Female Figures", Van Gogh, 1889.

I am blue today


I am blue today
why can't I say

I hear his voice
so loud and tough

and all I say
is I am blue today



"Campo de trigo com corvos", Van Gogh, 1890.

o trevo


tem um trevo
no meu jardim de bromélias
um solitário de três simplórias folhas

que no contexto
hostil das secas pedras
denota toda possível força

eu o vejo
em meio as pétalas
em posição tão (in)cômoda

e temo
penso com cautela
se teve escolha...



"Irises", Van Gogh, 1889.

a gota d'água


a gota d’água no copo

a gota d’água no


a gota d’água

a gota d’


a gota

a go


ta


t

r

a

n

s

b

o

r

d

a








"Nude woman reclining, seen from the back", Van Gogh, 1887.

Flores do Ipê


rosas

tantas delas em cópula


amarelas

Van Goghs nas janelas


violetas

ventania de borboletas


brancas

nuvens flutuantes nas plantas


(...)


nessa época, quem não vê

as flores fartas do ipê?



"The Mulberry Tree, Van Gogh, 1889.

rosa do medo


se meio medo


se meio rosas


sementes medrosas





"Wild Roses", Van Gogh, 1890.


1 ANO DE POESIA !!!





Olá amigos do blog!



Hoje, 30 de Maio, faz um ano de poesia. Um ano que resolvi partilhar um pouco minha pequenina poesia. O que sinto, meu universo subjetivo. Quero agradecer imensamente a todos que visitaram, e sobretudo aos que comentaram. Aqui se sentiram aconchegados. Traduzidos, tocados, ou revelados, permitindo que eu, de alguma maneira, soubesse disso. Deixo a todos o "Pessegueiro em flor", pois não encontrei algo mais apropriado, delicado e intenso para ofertar neste dia. Também resolvi republicar alguns que estão entre os meus preferidos ao largo desse período. Espero que gostem.


Grande abraço da Mariposa!



O trem


O trem

Vem vindo vem

Nessa férrea linha ad finem

Sem ninguém, sem ninguém

Repetindo seu réquiem

Para um bem

Que já não tem, que já não tem...



Grão de Areia


Aceito na areia ser grão perdido

Pois que da Vida já não duvido


Se apenas sou ente em grupo constituído

Não há outra maneira de acolher o Destino


Grânulo minúsculo e pequenino

Que na Natureza se encontra retido


A resignar-se perante um Todo, ferido

Por não ser Possuidor, mas ínfimo possuído!


Cansaço


Cansei do Bilac!

Prefiro ser poeta num traço.

Procuro um verso e tropeço n’outro!

Tento seguir a linha, mas ando trôpego!

E descalço!


O pretérito sentimento poético


O sentimento da poesia não existe.

O que existe é a poesia de sentimento.

No momento em que a poesia se pronuncia,

Há muito o sentimento já se perdia.


Dobrou a esquina quando eu ainda não via!



Partes


Part-o

Part-es

Partes tuas,

Minhas partes.

Partes, imos.

Partimos.

Idos partidos.

Partes idas.

Partidas.



Deus não lê poesia



De que adianta sangrar em papel as dores fugidias?

Implorar aos céus a vida que eu queria?


Súplicas em escarcéu são rasgos e amassos!

Minha pena tem mais o que rogar do que rezar ao léu!


De que adianta prostrar-me, feito réu, perante os versos

Que aqui encerro com aparente apatia?


Ademais, Deus não lê poesia!





Outono


Gostaria perder-me no outono

Em algum bosque de ouro

Num adeus, me diriam: "_tolo"

E meus rastos já não teriam dono


Mas esconder-me entre as amarelas

Fartas folhas e tantas

Entristeceria em ocre medonhas

O desabotoar das próximas gérberas!





Não tenho tempo para poesia


não tenho tempo para poesia

os ponteiros na parede apenas pontuam meu pulsar

por isso doem minhas têmporas

o tempo muda e muda a temperatura

o tempo é mudo, minha pena é temperamental

sinto que meu poema não tem tempo

e pressinto que vem vindo um temporal...




Ópio


verti-me adulterado desde que te conheci

me corrompi, despertei de todo meu ócio

de tal modo que todos os caminhos que percorri

desembocaram nas tuas trompas de falópio




A mariposa e a lamparina


mariposa, mariposa

que rodopiava a lamparina

tal qual bailarina

para onde fora?


mariposa, mariposa

trocaste a sapatilha pelo salto

agora faz sapateado

no meu coração, livre e solta?


mariposa, mariposa

será que danças tango

voando alto com algum pirilampo

em outros ares, outras folhas?


mariposa, mariposa

deixaste-me com um fado

sorumbático, de lado

já não ilumino a sala toda.



Uno

canto o canto

caminho o caminho

sonho o sonho


um

poeta

sozinho




"Pessegueiro em flor", Van Gogh, 1888.


Obs: Desculpem se houver algum problema com a formatação. O Blogger teima em ter vida própria!

Intermezzo



menino que treme de medo

não sabe que o morcego da noite

é o meio de encontrar

no deserto um camelo?




"Starry night over the Rhone", Van Gogh, 1888.


Denominações


a poesia é fútil

embora nobre

a poesia é van

embora Gogh



"The Mulberry Tree", Van Gogh, 1889.