eucalipto
Angiosperma
meu coração é minha matéria
é por isso que quando meu corpo penetras
atinges também minhas artérias
"Danae", Gustav Klimt, 1908.
A humanidade é feminina
o mal bem-me-quer
o bem mal-me-quer
o mal o bem
tudo convém
à alma da mulher
"Unstable cover", Iman Maleki, 1995.
Pena
entre nuvens
minha mente
a voar
como penugem
o que sente
se afastar
perto do lume
o remanescente
é penar
"Couple with a Parrot", Pieter de Hooch, 1668.
A Essência é Ar (para quem voa)
O que tenho

O que não tenho
senão os anéis no anular?
O que não tenho
senão os trapos a me indumentar?
O que não tenho
senão os sapatos a me civilizar?
_ O que eu tenho, de fato, é nuclear!
"Par de sapatos", Van Gogh, 1887.
Invento

um invento
no pensamento tenho
abstrato
não compacto
intacto
puro e ingênuo
que toca-me com desdém
palpável e autoritário
porém
"Doze girassóis numa jarra", Van Gogh, 1888.
O pretérito sentimento poético
O sentimento da poesia não existe.
O que existe é a poesia de sentimento.
No momento em que a poesia se pronuncia,
Há muito o sentimento já se perdia.
Dobrou a esquina quando eu ainda não via!
"Landscape with butterflies", Salvador Dali, 1950.
A Criação
Um dia, um rei dessas estórias de “era uma vez”
Assinou uma lei que dizia: “todos deveriam amar”.
O pobre coitado havia esquecido que não se ama por decreto, somente por afeto.
Um outro dia, esse mesmo rei baixou uma resolução
Que afirmava que “todos deveriam seguir seu coração”.
Esqueceu mais uma vez que o reino era governado pelo brasão da razão.
Mais tarde quando percebeu que suas tentativas não funcionavam de fato
Tomou uma medida provisória drástica: “todos deveriam então se apaixonar”.
Funcionou por um tempo até quando um plebeu saiu por aí a dizer um boato.
Este espalhou pelas cercanias que o rei era louco
Que não poderia opinar nem governar
Porque os sentimentos do mundo eram de caráter profundo.
Que deveria cuidar da monarquia
Combater a tirania
E eliminar as epidemias.
De tal sorte, o rei percebeu que não havia muito que fazer
Ao que dizia respeito aos assuntos do coração
E que mandar em todos seria uma imposição.
Logo, ficou triste e essa sensação lhe deu uma última imaginação:
Pensou então que poderia, de maneira formal e irrevogável,
Criar uma social e feliz instituição...
Poeminha do medievo
Há em meu coração distintas sacadas.
Delas, estendem-se galerias
Contendo imagens tresloucadas
De menestréis despidos de alegria.
Com mãos trêmulas traçam acordes em um instrumento
Consumido pelo desejo daquelas que balançam os quadris
Sem se incomodar com julgamentos vis
Sem se perturbar com andanças do tempo.
Regressam à sacada atormentados acordes.
Migram para cá trazendo os fragmentos ensurdecidos
De meus fatigados dedos, sílabas trágicas abortadas,
Enamoradas das sonatas tombadas nas vielas públicas.
Aqui, da sacada, vão-se versos ao vento.
Vão errantes pelo oportuno outono
E certamente sangrarão em alguma província
Vidas famintas de metaforizados sentimentos.


